Educação patrimonial de arte cemiterial e Sarau Noturno são destaques em entrevista

Entrevista foi realizada no programa Papo da Hora, da Rádio Pelotense - Foto: Reprodução

A coordenadora dos cursos de História e Pedagogia da Urcamp, professora doutora Clarisse Ismério, foi a convidada do programa Papo da Hora com Carol Graziadei, da Rádio Pelotense, do Grupo A Hora do Sul, em Pelotas, na segunda-feira, 6. Durante a entrevista, a docente abordou sua trajetória acadêmica, o desenvolvimento da educação patrimonial com foco na arte cemiterial e a consolidação do projeto Sarau Noturno como uma destaca iniciativa de extensão universitária voltadas à preservação da memória local.

Com mais de duas décadas de atuação na área, Clarisse explicou que sua pesquisa em Bagé teve início em 2007, inicialmente voltada ao campo acadêmico. O interesse surgiu a partir da análise das representações simbólicas presentes nos cemitérios. “Cada túmulo carrega uma simbologia própria, que remete a mitologias, crenças ou às formas de representação de cada época. Esse universo acabou se tornando uma forma de colocar em prática a pesquisa, aproximando teoria e comunidade”, destacou.

A professora também contextualizou a forte influência do positivismo na cultura cemiterial do Rio Grande do Sul, especialmente durante o período de consolidação política do Estado. Segundo ela, a valorização da memória dos antepassados — em especial de figuras públicas — está diretamente ligada a esse movimento, inspirado em matrizes europeias, sobretudo francesas, e fortalecido localmente por lideranças como Júlio de Castilhos. Essa herança pode ser observada na arte tumular, nas estátuas e nos elementos simbólicos que representam valores, crenças e visões de mundo das famílias.

Outro ponto abordado foi a forma como as representações nos cemitérios refletem questões sociais, como o papel da mulher na história. Clarisse citou o exemplo de Mãe Luciana, figura ligada ao Educandário, reconhecida como símbolo de caridade e educação. “É uma mulher negra que, por muito tempo, foi invisibilizada, mas cuja história permanece viva e resistente. O cemitério também revela essas camadas da sociedade”, ressaltou.

Nesse contexto, surge o Sarau Noturno, criado em 2008 e idealizado pela própria professora como uma proposta inovadora de educação patrimonial. Realizado no Cemitério da Santa Casa de Caridade de Bagé, o projeto consiste em uma encenação teatral que utiliza o espaço como cenário para narrar histórias, resgatar personagens e despertar o interesse da comunidade pela preservação da memória.

Inicialmente recebido com resistência e até preconceito, o Sarau foi se consolidando como uma metodologia eficaz de ensino e extensão. “Transformamos a proposta em uma prática de educação patrimonial, mostrando que o cemitério é um espaço de aprendizado, um verdadeiro museu a céu aberto que conta, de forma grandiosa, a história da cidade”, explicou.

Além do Sarau Noturno, o projeto também promove visitas guiadas ao cemitério, frequentemente procuradas por escolas. Durante essas atividades, são apresentadas curiosidades históricas, como o fato de personagens que foram inimigos na Revolução Farroupilha — caso de Netto e do Visconde de Serro Alegre — estarem sepultados lado a lado, simbolizando as contradições e reconciliações da história.

A participação no programa de rádio também foi considerada pela professora como uma oportunidade de dar visibilidade à produção científica da Urcamp. “Foi um momento importante para apresentar nossos projetos e mostrar a maturidade científica que desenvolvemos ao longo de 21 anos na instituição, especialmente na área da educação patrimonial com enfoque na arte cemiterial”, afirmou.

O convite para a entrevista surgiu a partir da repercussão de uma matéria publicada no jornal Minuano, no caderno Minuano Conecta, que destacou o trabalho desenvolvido pela docente. A divulgação, segundo ela, contribui para ampliar o alcance das ações e aproximar a comunidade das iniciativas acadêmicas voltadas à preservação da história e da identidade cultural de Bagé.