Abertura de cofre em São Gabriel revela documentos originais do gaúcho que liderou anexação do Acre
RESPONSABILIDADE TÉCNICA FOI ASSUMIDA PELA GESTORA DE MUSEUS DA URCAMP
Foram necessárias sete horas de trabalho técnico para que o cofre de 1940, aberto no salão do Museu da Força Expedicionária Brasileira - FEB, em São Gabriel, pudesse trazer à luz um conjunto de documentos originais que recuperam fatos da história da formação do estado do Acre, a partir da trajetória militar do gaúcho e gabrielense Plácido de Castro (1870-1908), intitulado “Libertador do Acre”. Muitos dos registros encontrados, no último dia 30, foram escritos de próprio punho pelo então comandante das forças militares que lutaram pela anexação do território na fronteira com a Bolívia, durante o que a história oficial convencionou denominar de Revolução Acreana (1899-1903).
A organização de uma equipe de pesquisa que buscava pelos registros históricos foi capitaneada pelo secretário geral de governo do município de São Gabriel, Marllon Mendes Maciel. “Como nossa cidade tem um campus da Urcamp e conhecemos a atuação da instituição na manutenção de museus, convidamos a gestora de museus da Fundação Attila Taborda/Urcamp, professora Maria Luiza Cardoso Pêgas, para orientar o trabalho”, explica. Na companhia do reitor da Urcamp, professor doutor Guilherme Cassão Marques Bragança, Maria Luiza fez a remoção dos documentos do cofre, orientando pela imediata catalogação e registros em ata.
De acordo com Maciel, toda a operação foi resultado de uma demanda da Secretaria de Estado de Administração do Acre, assumida pela chefe do Arquivo Público daquele estado, Cleilda Dias, com o acompanhamento da procuradoria jurídica do município de São Gabriel. A pista, até então, era uma matéria do Ministério Público do Rio Grande do Sul indicando a existência desta documentação e sua possível localização no acervo do Museu da FEB de São Gabriel. A partir de uma reportagem sob o título: “Acervo descoberto por Promotoria revela história do Acre”, publicada em março de 2006, o grupo chegou ao material que estava lacrado há 20 anos.
FOLHAS AMARELAS
O conjunto recuperado do cofre, onde estava guardado desde 2006, continha duas pastas de documentos referentes à anexação do estado do Acre ao Brasil, incluindo o hino original daquele estado, escrito a mão no Seringal do Capatará, em 5 de outubro de 1903, pelo médico e poeta baiano Francisco Cavalcanti Mangabeira (1979-1904). Também havia cinco caixas de medalhas, 391 moedas antigas e 21 fotos originais da conquista de Montese pelos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (abril de 1945).
Ainda que a documentação não tenha sido totalmente avaliada em todos os seus aspectos, já foi possível identificar um grupo de cartas trocadas pelo coronel Plácido de Castro com o seu oponente boliviano, coronel Rosendo Rojas. Há também a ata de rendição das forças bolivianas e cópias de um inquérito que investigava a emboscada que resultou na morte do coronel Plácido de Castro. O destino dos itens resgatados será a guarda oficial do município de São Gabriel. Mas já foi autorizada a cópia e reprodução do acervo para que o estado do Acre as incorpore ao Arquivo Público.
“Acredito que o próximo passo será detalhar o conteúdo e determinar a preservação dos originais e o inventário sob a guarda de instituições oficiais. Encontrar estes documentos é recuperar uma parte da história do Brasil e da América Latina em um de seus últimos conflitos de fronteira”, observa Maria Luiza Pêgas. Já o reitor da Urcamp aponta como admirável o fato de que a análise e a difusão do acervo regional das personagens gaúchas continua a oferecer esclarecimentos aos grandes momentos históricos que definiram as fronteiras do Brasil.
REVOLUÇÃO ACREANA
A Revolução Acreana (1899–1903) foi um movimento político e militar ocorrido entre 1899 e 1903, motivado pela disputa do território do Acre, então pertencente à Bolívia, mas ocupado majoritariamente por seringueiros e colonos brasileiros atraídos pelo ciclo da borracha. Liderados pelo coronel Plácido de Castro, os revolucionários derrotaram as forças bolivianas e proclamaram a incorporação da região ao Brasil. O conflito foi encerrado diplomaticamente com o Tratado de Petrópolis, assinado em 17 de novembro de 1903, pelo qual o Brasil adquiriu oficialmente o território do Acre, em troca de uma compensação financeira, da cessão de uma pequena área de Mato Grosso e do compromisso de construir a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.